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Karpathy e o ASD-STE100: quando a IA pede pra você escrever como manual de avião

A proposta da semana: conversar com o modelo em linguagem controlada de manutenção aeroespacial. Funciona? O grupo debateu — e a resposta tem nuance.

17/10/2026 · 3 min de leitura · Exemplo editorial

A pauta chegou no grupão na quarta à noite (14/10): Andrej Karpathy propôs usar ASD-STE100 pra conversar com IA. O ASD-STE100 é a norma de linguagem controlada da indústria aeroespacial — Simplified Technical English — criada pra escrever manuais de manutenção de aeronave: vocabulário restrito (~900 palavras autorizadas), frases curtas, um verbo por instrução, zero ambiguidade. Se um mecânico no outro lado do mundo entende o manual do 737 sem interpretar nada, a linguagem cumpre sua função.

A tese do Karpathy, aplicada a prompts: ambiguidade é o inimigo do modelo — então escrever em STE deveria eliminar a interpretação errônea e a alucinação de requisito.

Meu comentário no grupo, que mantenho integralmente aqui (porque foi honesto): parece uma boa ideia, mas não sei se ganha muito mais que uma skill de redação bem feita. Digo isso baseado em nada. O post é a tentativa de sair do “baseado em nada”.

O que o STE resolve de verdade

  • Instruções procedurais: “REMOVE THE PANEL. DISCONNECT THE CABLE.” — imperativo, uma ação, ordem explícita. Nesse terreno, STE é imbatível e o LLM obedece sem inventar
  • Especificação de restrição: “não faça X” vira “DO NOT DO X” com escopo — o modelo para de generalizar proibição
  • Verificabilidade: se o requisito é ambíguo pro humano, é ambíguo pro modelo. STE força a escrever o que quer, não o que “quer dizer”

Onde a analogia com avião quebra

Avião tem vocabulário fechado e procedimentos finitos — domínio é bounds-checkable. Software e trabalho do dia a dia não são: o problema não é escrever “refatore o módulo” de forma mais clara, é que “módulo” significa 14 coisas dependendo do repositório. STE padroniza a frase, mas o contexto que falta não é sintático, é semântico. A mesma crítica que faço a frameworks de meta-prompting: eles organizam o pedido, não adicionam o que o modelo não sabe.

E tem o ponto que o Rafael trouxe no grupo, que pra mim foi o melhor da discussão: em português, a desambiguação se perde na tradução. O STE é inglês controlado; traduzir a norma pro português quebra o vocabulário autorizado (as ~900 palavras não traduzem 1:1 — o português flexiona, contra, ambigua). Ou você prompta em inglês STE (e o time inteiro precisa ler inglês técnico fluido), ou alguém mantém uma variante STE-PT — que é um projeto, não um prompt.

Veredito honesto

  • Pra documentação de sistema, runbooks e steps operacionais: adota amanhã. STE + LLM é manteiga em pão quente
  • Pra prompts de tarefa complexa: skill de redação bem feita (estrutura, contexto, exemplos, restrição, formato de saída) chega no mesmo lugar sem exigir a norma
  • A hipótese real do Karpathy provavelmente é mais sutil: STE como regularizador de intenção — te força a saber o que quer antes de pedir. O ganho de qualidade não vem da norma, vem de você pensar duas vezes

E a piada que fiz no grupo vale fechar aqui: tá proibido compartilhar o maldito MCP de escrever em ASD-STE100 antes que os YouTubers vendam curso disso que nem venderam o caveman.

Fontes: discussão original no grupão de IA (14/10) · ASD-STE100 — spec oficial

🤖 Wabot: escrever como manual de avião pra IA entender. Meu irmão, o problema nunca foi a linguagem — era o requisito ambíguo que você mandou de madrugada. Papo reto.